ORUNMILA-IFÁ E O TESTEMUNHO DE NOSSO DESTINO

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

é uma das mais importantes divindades da religião Yoruba. Sua atuação esta centrada no oráculo e nos ẹbọs corretivos e sua atuação junto às demais divindades e seres humanos gira em torno da transmissão de sabedoria e da humildade. O fato de não ser um orixa (òrìṣà) guerreiro talvez também explique a pouca popularidade no Candomblé já que os orixa (òrìṣà) tradicionais sempre tem que carregar uma arma branca na mão e são representados como musculosos e lindas beldades. Essas descrições jamais seriam adequadas para Orunmila(Orula)r (Ọ̀rúnmìlà).
Através de sua grande sabedoria, conhecimento e compreensão Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) coordena a atuação dos irunmale (irúnmalẹ̀) da religião Yoruba. Ele funciona como um intermediário entre os demais irunmale (irúnmalẹ̀) e as pessoas e entre as pessoas e seus ancestrais. Assim ele é a boca dos orixa (òrìṣà) que fala através do seu oráculo, o oráculo de Ifá. É a testemunha de nossos destinos escolhido antes de nascermos.
Mas a falar de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) não é uma coisa simples e direta como estamos acostumados nos oráculos que usamos no dia a dia ou mesmo através dos guias de Umbanda. Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala através de sinais e de histórias. Suas histórias são metáforas, parábolas e que devem ser interpretadas. Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala sempre através de um Odù.
Existem 256 Odù e os sacerdotes de Ifá dedicam a sua vida a aprender a entender as mensagens de orunmilá através desses Odùs, a aprender os versos de Ifá, ospatakins,poemas, os ésés, que contem através de metáforas os ensinamentos e mensagens para os consulentes. Além disso devem aprender a como fazer as rezas, os ébó, as folhas e até sacrifícios que permitirão ao odù atuar na vida das pessoas.Assim, não se pode falar de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e de Ifá sem considerar que tudo isso gira em torno de Odù. Não sei se todos entendem o que é um Odù porque sem entender o que é um odù não se entende Ifá, mas volto nisso adiante. Entre nós, no Brasil, Ifá é sinônimo de Oráculo e muita gente usa assim indistintamente sem as vezes entender a origem dessa palavra.
No culto de Ifá um Babaláwo se dedica consultar o oráculo para as pessoas e a fazer as ações decorrentes para poder corrigir o problema que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) viu na vida da pessoa, não necessariamente o que a pessoas estava buscando lá. Quando a gente entre nessa área na qual um Babaláwo ou um Babalórìṣà, atende alguém e faz aquilo o que a pessoa quer ou que resolve o que a pessoa foi buscar estamos na área da feitiçaria e não da religião.
Uma babaláwo não é uma pessoa para fazer santo nos outros ou cuidar de orixa (òrìṣà) dos outros, para isso existem os Babalórìṣà. Um babaláwo trabalha através de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) com rezas, elementos simples e muito através de Exu (Èṣù) e Osanyin (Ọ̀sányìn). Mas basicamente a vida de uma Babaláwo é consultar o oráculo.
Contudo existe uma coisa comum entre Ifá e Candomblé que é a teogonia a base da religião, que é a mesma. Ser um culto especializado em uma divindade não muda o contexto religioso que ele está situado. Para qualquer um estamos tratando da mesma matriz religiosa e nessa matriz o papel de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é reconhecido da mesma forma.
Na nossa teologia, antes de nossos espíritos virem para o aiyé, no orun (ọ̀run) nós nos ajoelhamos perante Olódùmarè para junto a ele pedirmos o nosso destino, que alguns preferem chamar de objetivo de vida. Nesse momento nós escolhemos o que queremos viver nessa vida, o que queremos realizar e qual o nosso objetivo ao nascer no aiyé. Olódùmarè pode concordar com o que pedimos ou não, ou pode ainda definir para nós outros objetivos de vida. Essa conversa é uma das coisas mais importantes para nós e dela poderá depender por exemplo qual será o nosso odù de nascimento, porque ele faz parte do nosso Orí e vai ser definido para nos ajudar na vida que vamos ter aqui no aiye. O nosso orixa (òrìṣà) também poderá ser definido nesse momento e também será escolhido de forma a nos ajudar com nosso objetivo de vida.
Nesse ponto cabe uma dúvida porque o odù com certeza depende de nosso destino escolhido e atribuído, mas o orixa (òrìṣà) não tenho certeza. Eu gosto da visão de que o orixa (òrìṣà) não tem restrições no seu poder e qualquer orixa (òrìṣà) que tenhamos vai nos ajudar igualmente. No meu íntimo essa idéia de especialização funcional de orixa (òrìṣà), como as pessoas gostam e chegam a dizer que profissão uma pessoa de tal orixa (òrìṣà) deveria ter, é uma idéia meio cartesiana muito simplificadora e racionalista. Assim não tem minha simpatia.
Uma outra opção é a que nascemos com algum orixa (òrìṣà) de nossa família, de Pai, mãe ou avós, assim uma mesma linhagem teriam filhos com orixa (òrìṣà) similares e claro sempre se casa com uma pessoa de fora da família e novas opções de orixa (òrìṣà) podem ser incluídas.
Mas o importante é que como eu sempre disse, nós aqui no aiyé somos a coisa mais importante de Olódùmarè. Esse mundo espiritual, os orixa (òrìṣà) existem para nos ajudar a viver e não para nos escravizar ou atrapalhar.
Essa nossa conversa com Olódùmarè tem apenas 1 testemunho: Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Assim ele é o único que pode saber o nosso destino. Algumas outras divindades podem fazer parte, uma delas é ajala, outra é onibode, oporteiro do orun (ọ̀run). Antes de descermos para o aiyé perante Onibode nós falamos o nosso destino e quando pretendemos retornar.
Mas para nós aqui Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o ẹlẹ́rií (elerii) ìpin, testemunho dos destino de todos nós e o mensageiro divino aquele que traz as mensagens de Olódùmarè e de todos os orixa (òrìṣà). Quando em nossa vida temos uma dificuldade que não conseguimos resolver, e isto está nos impedindo de seguir em frente, naqueles momentos em que não sabemos mais o que fazer, devemos recorrera a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultando o oráculo de Ifá. Essa consulta é ao mesmo tempo um pedido de socorro e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), o ẹlẹ́rií (elerii) ìpin vai responder de forma a corrigir nossa vida para que possamos seguir com nosso destino.
Essa visão é o sentido religioso que eu conheço para o oráculo dentro de uma religião e esta visão é a mesma para o culto de Ifá ou dos orixa (òrìṣà). Dessa maneira não existem 2 testemunhos, só existe um testemunho, e ele é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), e existe para qualquer pessoa.
Assim seja no culto de Ifá ou de orixa (òrìṣà) você tem que lidar com a mesma divindade, com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)quer você ou não, temos apenas um do destino e não 2, se vamos a um oráculo de eerindinlogun para corrigirmos o nosso destino e vamos ter uma resposta para isso, quem está respondendo é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) porque somente Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o testemunho de nosso destino.

Créditos da Imagem: by Childerico (from: “Ifá: A Forest of Mystery “, by Nicholaj de Mattos Frisvold/Scarlet Imprint, U.K.)

Bibliografia: “Ifa Divination: Communication Between Gods and Men in West Africa” (1969) de William Russel Bascom (1912-1981)

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